
E lá se foram quase dez anos, desde a última vez que a vi.Ela foi minha primeira terapeuta, minha primeira grande amiga. E o seu riso luminoso, sua fisionomia terna nem todo esse tempo foi capaz de apagar.Eu,ainda apenas um gordinho,que não podia ser classificado de obeso naquela época;além de não possuir todo o meu peso atual,também não possuia barba nem a expressão calejada pelas inúmeras porradas que a vida me deu nos últimos anos.Eu devia ter uns quatorze, e já sabia, lá no meu íntimo que queria ser ator, já sofria de falta de interesse pela realidade,já começava a apresentar os primeiros sintomas pela carência absurda de um pai que eu nunca tive de verdade.Os sintomas da grande obsessão que me seguirá até a morte talvez, a idéia fixa e intangível de ser um grande ator de televisão lá no Rio de Janeiro, de ganhar a vida fazendo o que de fato me daria prazer, de proporcionar aos meus uma vida mais confortável, de ser reconhecido e ter meu vazio preenchido graças a fama que seria consequência do meu talento que eu obcecado julgava possuir de sobra.E de conhecer um universo novo e multicolorido. E ela estava lá, me ensinando, me encorajando, trazendo um pouco de graça para a minha rotina juvenil tão sem cor.Me contando sobre todas as cores que me esperavam quando fossemos em uma das próximas férias para o seu Rio Grande Do Sul. Me falava das frutas típicas de lá, e quase impossíveis de serem cultivadas no meu quintal. E eu imaginando tudo que me esperava em uma das minhas próximas férias:a temperatura baixa, os sons, os aromas e as cores; as cores sempre.
Ela acreditava que eu fosse capaz de chegar ao Rio,e eu confiava na fé que ela depositava em mim.De fato,Irmã Salete era uma freira diferente das outras.Possuía um brilho, uma alegria, um vontade de viver no olhar única, singular. E um dia quando cheguei na escola, soube que ela não estaria presente para a aula de religião, pois tinha feito uma viagem de última hora. Viagem essa, que eu ignorava que nunca teria volta.
Tempos depois, entendi o que havia acontecido:ela largara o hábito e por motivos que nunca entendi direito, teve que ir embora de uma hora para outra. Imposição da paróquia?Vontade própria, por receio de não saber o que dizer para a comunidade? Para mim, ela não precisaria dizer nada, pois a alegria e a amizade que ela me proporcionava era o bastante. E sua força, sua luz,e sua fé estavam além de qualquer hábito.
Ela nunca mais voltou. Por algum tempo vivi no afã de que ela voltasse, me escrevesse ou sei lá o que.Por alguns anos de minha vida esperei que algumas pessoas retornassem: meu pai, minha tia Renilda, Marcela e com Irmã Salete não foi diferente. Eu tinha fé que uma dia ela apareceria para que cumprissemos nosso roteiro no tal Rio Grande do Sul,e se tal odísséia não possível fosse, tudo bem. Minha fé permanecia inabalável de que ela voltaria para que eu pudesse escutar seu riso, assistirmos juntos, mais uma vez A noviça Rebelde, e jogarmos conversa fora enquanto descascávamos nozes, vindas do famoso Sul.
Mas assim como as outras pessoas que não vieram, e eu cansei de esperar;com ela foi igual:num dia qualquer de minha rotina sem sal, eu deixei de crer na ternura, nas promessas, e na força de uma amizade que derrepente só eu parecia cultivar. Meu pai não veio e olha que esperei até o meu aniversário de dezoito anos, minha tia Renilda nunca voltou no tão esperado Julho para me buscar, se bem que a partir de um determinado mês sete, eu nem sabia mais se queria mesmo que ela voltasse pra me levar , e o reencontro com Marcela foi frustrante, infeliz.
Não é preciso entender tudo de minha história, mas o que acontece é que apartir de um certo dia, depois de tantas esperas em vão, eu perdi a minha fé.
E honestamente párei de contar até mesmo com o acaso que me brindou com tantas rasteitas.Meu pai, minha tia, e Marcela são personagens que desencadearam o meu ceticismo em relação a possibilidade de rever Irmã Salete.Meu ceticismo em relação a a qualquer reciprocidade no amor.
Estava determinado:eu nunca mais iria rever Irmã Salete. Não tinha seu paradeiro. Ela não perderia seu tempo me escrevendo. Minha amizade não era essencial para ela.
Março do ano de 2008.Cá, estou alienado pelas ferramentas que a tecnologia através da internet me disponiliza:msn, orkut, site de revistas de televisão, horóscopo,vídeos engraçados,blogs, paredão.
Me transformei num obeso quase mórbido, sem nenhum intelecto,sem perspectivas de futuro, amor, amizade ou sorte.
Enquanto perco parte do meu tempo me dedicando a visitar profiles alheios, afim de apreciar as cores que não vejo em minha própria vida, uma lembrança remota me apraz:Por onde andará Irmã Salete Frizon?
Meu coração assim como minha face, calejado, digita o nome dela, sabendo desde sempre que seria inútil aquela breve pesquisa , pois era quase impossível encontrá-la.Afinal, seria mesmo Frizon seu sobrenome? Depois de tanto tempo, eu não podia confiar na exatidão de minha memória.Depois de tanto tempo, ela era praticamente uma desconhecida.
Mas digitei:Salete Frizon.
Um sorriso iluminado clareou a minha tela. Era a primeira vez que a via sem hábito.Estava um pouco diferente, o que era previsivel, depois de quase uma década.
Mas seu olhar, seu semblante que inspirava alegria e liberdade, não tinham sofrido nenhuma mudança.
Esqueci as minhas decepções. Minhas esperas em vão por meu pai, minha tia e por Marcela. Esqueci os calos, as porradas, as cicatrizes que a vida tinha me ensinado a aguentar.
E lembrei da amizade mais pura, mais genuína que eu havia cultivado talvez em toda a minha vida e fui tomado por uma fé incompreensível,por uma vontade de tentar mais uma vez.
A vontade era escrever "Irmã Salete", mas hesitei. Afinal ela não era mais freira,poderia soar indelicado: "Salete,não sei se vai lembrar de mim, mas eu nunca esqueci da tua amizade, e sinceramente tenho fé de que não tenha se esquecido desse teu amigo de Alto Coité."
Reli minhas palavras: Mas eu nunca me esqueci da tua amizade. Tenho fé que se recorde da minha.
E chorei por quase um minuto interrupto.
Chorei de tristeza. Chorei de saudade. Chorei de alegria. Chorei por ter a certeza de a que fé que eu julgava não mais existir,continuava viva dentro de mim, e algo me dizia que ela também não havia me esquecido. E que ainda havia motivos para acreditar na vida, na ternura e numa amizade sincera que nenhum tempo, ferida, cicatriz, calo ou porrada foi capaz de apagar.


Um comentário:
bom...
que vc saiba valorizar esse reencontro, que o valor dele esteja em vc mais vivo que nunk!
beijosss
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