sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Impressões de um expectador


Nessa última quinta-feira depois de conhecer finalmente o Cristo Redentor fui assistir Os Difamantes, uma comédia deliciosamente leve e despretensiosa, interpretada por Emílio Orciollo Neto e Maria Clara Gueiros, em cartaz no teatro do Leblon.

A peça narra a história de Maurício e Beatriz, um casal que tem como hobby falar mal da vida dos famosos e que de uma hora pra outra se veem diante da possibilidade de também se tornarem celebridades e automaticamente passarem de difamantes para difamados.

O que chamou a atenção logo de cara, foi o fato de antes mesmo da peça começar, eu já ter a oportunidade de ir me familiarizando com o universo dos personagens, que já se encontrava no cenário onde toda a história se desenvolve. Ou seja a partir do momento que o público ainda se acomoda em suas poltronas, já é convidado despretensioamente a entrar na intimidade de Mau e Beatriz,e quando a peça começou a sensação que tive é que já era amigo do casal, uma vez que já conhecia o até mesmo o quarto deles, justamente o quarto, um dos comodos mais intimos de um casa.

E o desenrolar da história não é diferente. Alicerçados por um texto despojado, enxuto e engraçado, Maria Clara e Emilio, nos brindam com uma interpretação leve, envolvente e divertida;e se não bastasse toda a familiaria com os personagens construída a partir do cenário, somos repetidamente " convidados" a " participar" da vida íntima do casal, como se fossemos amigos de longa data,e nos tornamos ouvintes de Mau e Beatriz em diversos momentos da peça.

E apesar de toda a leveza, espontaneidade e despretensão que o texto e a interpretação dos atores nos proporcionam, somos estimulados a questionar um assunto que esta cada vez mais atual: será que vale mesmo a pena se tornar uma celebridade? Qual será realmente a grande vantagem de se tornar uma pessoa conhecida?

A peça não tem a intenção de dar lição de moral em ninguém,não traz a tona no final da história uma mensagem que mudará para sempre a vida dos narcisitas que a assistirem, fazendo com que os mesmos repensem a importancia que dão na busca incessante para se tornarem pessoas conhecidas.

A peça simplesmente consegue de uma maneira muito saborosa propor que façamos uma análise dos nossos valores e nos questionemos a verdadeira importancia de se tornar famoso, tudo isso através do cotidiano de um casal que se ama, e que está cotado a alcançar os tão sonhados minutos de fama nos próximos dias.
Tudo isso de uma maneira despretensiosa, sem tentar empurrar nada goela abaixo.

De qualquer modo, questionamentos de valores a parte,a vontade que dá é de anotar o telefone do Maurício e Beatriz, para que possamos marcar um jantarzinho qualquer dia lá em casa. Porque um casal de amigos divertidos como eles, torna qualquer reunião mais agradável.

No final do espetáculo,apesar de toda a minha timidez que acaba resultando numa gagueira repentina que só surge quando insisto falar mais do que devo,resolvi cumprimentar os atores pelo excelente trabalho.

A primeira de quem me aproximei foi Maria Clara. Pedi Licença, e disse que não era do Rio, que tinha visto a peça e gostado muito. E finalizei parabenizando-a pelo trabalho, visto que a gagueira repentina já começava a ameçar os primeiros sinais.

Nesse exato momento, Emílio passou ao meu lado, e eu correndo o risco de parecer inconveniente, e já prevendo o surto de gagueira, fui quase monossilabaco.

- Eae.

- Eae, ele respondeu.

- Mandou bem lá, eu disse e sai desorientado por minha timidez, enquanto ele agradecia pela minha observação.

Enquanto esperava a chuva passar para vir embora, fiquei pensando na idiotice que tinha feito. Então o cara além de atuar, (diga-se de passagem muito bem), ainda é o produtor do espetáculo( muito bem produzido por sinal)e tudo que eu consigo dizer é Mandou bem?

Antes eu tivesse ficado calado, pensei comigo.Afinal boca fechada...

De qualquer maneira, fui surpreendido com a simpatia de Emílio que se despediu de mim, que ainda aguardava a chuva passar, na saída do Teatro.

- Tchau,ele disse me sorrindo com muita simplicidade e verdade.

- Tchau, eu respondi, embora a vontade fosse dizer que ele não tinha apenas mandado bem, que eu tinha me divertido a beça, que tinha adorado o texto, a iluminação, a sonoplastia,e que ainda no final das contas, eu que de vez em quando fico me perguntando se quem sabe não seria mais feliz se fosse menos anonimo, passei a me questionar se essa tal de fama vale mesmo a pena, assim como fizeram Mau e Beatriz.

Optei por dizer só tchau, até mesmo para não me enrolar na minha gagueira ainda mais.Embora minha vontade fosse dizer que havia me emocionado com sua interpretação em O rei do Gado, Anjo Mau e Alma Gemea, que também tinha visto um clip na MTV dirigido por ele, e que admirava seu trabalho pra valer, ainda que não acompanhasse sua carreira com tanta assiduidade.

Fiquei só no tchau mesmo, até porque ele tinha feito outros trabalhos e podia não pegar bem o fato de eu não me lembrar de todos.

E enquanto a chuva cessava eu voltava pra casa, tentando entender essa linha tenue que transforma a maneira como enxergamos algumas pessoas, de uma hora pra outra.

O Emílio por exemplo. Gostava do trabalho dele e ponto.Era só isso.E para ser sincero ele nem estava entre os meus atores preferidos, embora, repito reconheça o talento dele.

E agora, depois daquela peça, depois daquela chuva, depois da tentativa de tentar expressar minhas impressões sobre o trabalho que acabara de assistir, depois do meu surto de gagueira,depois do tchau no final da chuva,depois de alguma coisa que nem eu mesmo sei explicar qual, eu voltei pra casa,admirando ainda mais o trabalho e agora também a pessoa do Emilio que com sua graça, talento e simplicidade passou a encabeçar a lista dos meus atores favoritos, passou a fazer parte da minha lista de pessoas especialmente talentosas, com as quais eu gostaria de me parecer de alguma maneira, quando terminar de crescer.




Um comentário:

Eu Hein disse...

Oi, Gustavo. Aqui quem escreve é Nelito, co-autor da peça. Parabéns, você captou exatamente o que eu e Martha quisemos passar. Uma crítica digna de profissional. Abração.